Ele tem a Chave

Por Jyothi Bathina

 

 

Numa tarde quente de verão, em uma pequena aldeia em Orissa, Índia, um garotinho brâmane, chamado Triloki Dash, senta-se debaixo das extensas ramas de uma antiga Figueira-de-Bengala.   Ele se senta e estuda com toda a atenção os seus livros escolares na tranqüilidade da sombra e atrás dele fica o templo da aldeia, do Senhor Shiva, o supremo iogue, que, no calor do meio-dia, está fechado. O sacerdote realizou o seu culto matutino e o templo está trancado até o anoitecer.   

 

Mas o pequeno Triloki tem a chave e sempre que uma devota chega à tarde, atrasada e arquejante, cansada e empoeirada, esperando ter um vislumbre de seu Amado Divino, carregando leite, coalhada e ghee para realizar o abhishek, ele não tem coragem de mandá-la embora. Ele vê o desapontamento dela, observa silenciosamente o seu desesperado esforço para acordar até mesmo um sacerdote brâmane na aldeia para ajudá-la a realizar o puja e, finalmente, quando ela volta e desanimada se senta nos degraus do templo, murmurando inconsolavelmente para si mesma, ele lhe pergunta qual é o problema. A mulher volta-se para ele com nova esperança, perguntando se ele é um menino brâmane e se pode ajudá-la com o puja. Com um brilho travesso naqueles cintilantes olhos negros, Triloki acena que sim e surge em suas mãos a pesada chave das portas do templo. Num instante, ele veste um dhoti laranja, que é mantido ao seu lado exatamente para essas emergências, e sobe correndo os degraus de pedra. Os seus dedos ágeis destrancam as portas e ele as empurra até se abrirem completamente. Embora pareça pequeno e frágil, ele luta corajosamente e carrega os pesados baldes d’água para o banho ritual do Senhor Shiva e, com grande devoção e vivacidade, ele mesmo realiza o abhishek, decora o lingam com flores, faz o arati e o oferece à extasiada devota.  Ela o abençoa com lágrimas nos olhos, agradecendo ruidosamente à mãe que deu ao mundo um filho como esse.

 

Aquele Triloki Dash é agora Paramahamsa Prajnanananda, não mais um colegial, ele é bem versado em todas as escrituras, não se senta mais sob a árvore da aldeia, ele viaja pelos três continentes, ensina o evangelho do amor, da verdade e da divindade. Muitas coisas mudaram, menos uma. Ele ainda espera e observa, pronto para abrir as portas para as imensas riquezas espirituais, para a união com o Divino. Não importa quão atrasado esteja o viajante, nem importa quão cansado, se o nosso desejo é forte e a nossa motivação é pura, ele jamais nos mandará embora. Desejoso de compartilhar o segredo do amor, desejoso de abrir os mistérios do yoga, desejoso de carregar o imenso fardo de todos os nossos pecados e sofrimentos sobre os seus frágeis ombros, limpando-os com a pureza de seu amor e compaixão, decorando o nosso caminho com a sabedoria e a beleza de sua presença, ele nos oferece o arati da salvação com um coração generoso.

 

O colegial agora é um professor, um professor que dá tudo o que tem, colocando tudo de lado para servir a nós, os seus estudantes, para que possamos caminhar firmemente no caminho de Deus. Nesse dia auspicioso de seu aniversário, vamos repetir o que disse aquela devota de muito tempo atrás, dando graças a Deus e à sua mãe humana, Vaidehi Dash, por ter dado ao mundo um filho tão maravilhoso.